segunda-feira, 4 de maio de 2009

A INDIFERENÇA DE NOSTRADAMUS

O texto que segue foi escrito há mais de 10 anos e publicado no ainda existente “Jornal de Alagoas”. Embora ácido, em razão da contundente crítica à incapacidade das nossas elites, na verdade tinha a pretensão de um relato cômico. Não obstante os avanços havidos em nosso Estado, o artigo, de certo modo, permanece atual, tanto por conta dos recentes escândalos que assolam Alagoas, quanto pela oportunidade perdida em diversos saltos qualitativos e quantitativos que poderíamos ter realizado. É claro que o número sete, relativo às pragas referidas no artigo, está relacionado, de um modo jocoso, ao texto bíblico (Apocalipse 16:1-17), mas sabemos bem o quanto poderíamos acrescer a este número.

A INDIFERENÇA DE NOSTRADAMUS

Situada no nordeste do imenso território brasileiro, a viçosa Alagoas, terra do encontro do velho Chico com a extensão ilimitada do mar, um dos mais belos do planeta, vive o declínio sem nunca ter conhecido o apogeu. As bestas, em todas as acepções suportadas pelo termo, invadiram, há muitos lustros, o solo sagrado em que reinavam outrora os bravos Caetés. Para fazê-lo, urdiram um sinistro plano, objetivando o flagelo total. Sobre os desventurados habitantes lançaram sete pragas. A primeira, a mais terrível, fez o povo adoecer da ignorância. O vírus desta patologia disseminou-se por todo sistema que permitia à população o saber. Desde então, os habitantes não mais se informam e, nas grandes ocasiões democráticas – destinadas à escolha de seus líderes –, são juntados em currais e levados, em bandos, a manifestar uma vontade viciada, nula, onde elegem, sem escolha, os que deveriam administrar com zelo os seus dinheiros. A maldição foi devastadora: o analfabetismo registrou o maior índice entre as unidades federadas de um indigente país periférico.

Com um bombardeio de um poderoso instrumento, denominado pelos terráqueos de mídia, as bestas imprecaram outras duas grandes pragas, logo atingindo os desditosos moradores da região. Não menos nocivas, elas acometiam as defesas imunológicas daquelas pessoas que resistiram ao vírus da ignorância. A alienação falsificava a noção da realidade e a praga da inconsciência minava a possibilidade de mudanças no padrão cultural e político.

Como se não bastasse, os quadrúpedes apocalípticos atingiram em cheio a organização do estado, desmantelaram, por anos, os órgãos que prestavam serviço ao povo. A praga do empreguismo, prima irmã da praga do nepotismo, sufocou a máquina estatal que, empolada, não conseguiu oxigenação para se manter.

No rastro das duas últimas, uma outra foi lançada: a incompetência. Sendo assim, os hospitais ruíram, os habitantes ficaram sem saúde, a mortalidade dos neonatos impressionava os mais pessimistas, a segurança pública tornou-se motivo de piadas, a criminalidade urbana explodiu, a fome e a miséria persistiram.

A sétima praga, a mais abjeta, invadiu a pequena província arrebatadoramente, destruindo o parco patrimônio daquela gente toda. Era a corrupção, palavra cuja origem etimológica – do latim corruptione – explica bem os seus efeitos deletérios: estragar, decompor, perverter, arruinar. Começara, assim, o cataclismo que martiriza, ainda hoje, o povo alagoano.

Os atingidos pela primeira praga nunca souberam que as bestas eram tão humanas como eles. Ainda acreditam que toda essa ruína foi por ira dos deuses, ou obra de terríveis espíritos demoníacos. Perturbados, procuram centros místicos objetivando o afastamento das maldições, a cura dos males, uma vida melhor.

Muitos daqueles que se deram conta da humanidade das bestas, acomodaram-se. Uns por cooptação, determinada pela praga da inconsciência. Outros, em vista da alienação, resignaram-se, acovardaram-se, ou foram, simplesmente, indiferentes. Poucos lutaram contra tal situação. Melhor para as bestas que continuam soltas.

Quanto a Nostradamus, era europeu demais. O profeta de primeiro mundo foi indiferente ao apocalipse que devasta a triste Alagoas. No entanto, o grande Ogylolá, poderoso pajé, o maior adivinho entre os Caetés, havia previsto o final dos tempos para o povo futuro do solo que então habitava. Não há registro, todavia, das antevisões do mago indígena. Injuriados por uma prática saudável da tribo que vivia às margens do litoral alagoano, os brancos europeus destruíram as pictografias que vaticinavam o cataclismo. Seus sacerdotes impuseram mais tarde ao povo da terra o conhecimento de Nostradamus. Dizem que foi vingança, já que o pajé Ogylolá teve seus sonhos proféticos graças à indigestão produzida depois que, literalmente, comeu o bispo Pero Fernandes Sardinha.


domingo, 22 de março de 2009

PRIMEIRAS REFLEXÕES


Escreveu Canotilho, um dos mais célebres constitucionalistas luso-brasileiros do nosso tempo, que, na modernidade, a balança da justiça já não tem mais dois pratos, pois é digital e digitaliza em termos reais interesses múltiplos e múltiplos interesses. O conceito platônico de justiça como um paradigma, como algo definitivo já não encontra ressonância em um meio social marcado pela complexidade, com valores díspares e antagônicos. Estamos vivenciando o mundo transgênico, heterogêneo, plural. O monismo morreu e com ele a inferência, carregada de platonismo, de que devemos ficar sempre ao lado do Direito e da Justiça mesmo que o mundo inteiro esteja contra. Afinal, que diabos de Justiça e de Direito são estes que contrariam todo um mundo? Que iluminado ou semideus os detém?
Mas, se já não é possível uma justiça ideal é possível fazer justiça? Para além dos clichês, das figuras de retórica, tão ao gosto do messianismo dos nossos tempos, acredito, como muitos, nas pautas em torno das quais temos certo consenso. No entanto, é indiscutível, como damos a elas interpretações variadas. O ser humano, consoante Nietzsche, está destinado à multiplicidade, e a única coisa permitida é a sua interpretação.
Não há, à parte os que já cederam à cretinice, quem não concorde, por exemplo, que os processos devam ser tratados com esmero, que os magistrados sejam probos, que atuem com rapidez. No entanto, só neste pequeno trecho podemos colocar, problematizando: rapidez e esmero são compatíveis? Em qual situação? Em que medida? Com quais condições? Qual o esquadro comensura a honestidade? De que honestidade falar? Da que aparece na opinião pública ou nas opiniões publicadas? Será que somos honestos conosco ou escondemos para debaixo dos travesseiros os mais pecaminosos delírios que até Freud coraria diante deles?
Então, o que resta àqueles que acreditam? Àqueles que cheios de emoções gritam, ainda que internamente, seja lá por quais motivos, para que prevaleça o que lhes parece correto? Resta o caminho que se faz caminho por caminhar.
Na caminhada descobre-se como remover os obstáculos: dialoga-se, buscando sempre o consenso possível na oxigenação dos contrários. Irredutibilidade somente quanto à dignidade de todos.
No mundo físico, segundo os estudos do Nobel Ilya Prigogine, existem dois tipos básicos de estrutura: a “estrutura de equilíbrio”, de que se tem exemplo o arranjo molecular de cristais. Este somente pode persistir como sistema isolado. O outro tipo chama-se “estrutura dissipativa”, que apenas subsiste em conexão com o ambiente – como os padrões de convecção que se formam num líquido e desaparecem quando a fonte de calor é retirada.
A justiça e o direito, permitida a adaptação, são “estruturas dissipativas”. Existem apenas em conexão com o nosso meio, com as nossas construções ou, para ser fiel ao texto, com a nossa caminhada. E ao contrário do que possa parecer aos mais apressados, tal conclusão não pretende legitimar o comportamento dos patifes, que não podem ficar impunes, mas evitar o fundamentalismo. Todos os regimes de força, toda a opressão, tiveram por esteio uma fé inquebrantável, uma crença em valores absolutos. Stalin dizimou milhões de camponeses pelas aspirações do que entendia por igualdade; Robespierre, em nome da liberdade, um dos ideais clássicos da Revolução Francesa, levou à guilhotina seus próprios companheiros; os inquisidores cristãos queimaram, valendo-se da fé que diziam ter em Deus, milhares de pessoas.
Concluir pela inexistência de valores absolutos não é, definitivamente, uma atitude pessimista e cômoda. Representa, em verdade, a possibilidade de convivência com as diferenças, a aceitação do alter, a abertura para construção contínua do novo. E já que o novo é irreversível, rejeitar os valores absolutos implica, ao menos, a possibilidade de uma caminhada melhor nas sendas que, incessantemente, aparecem ao ser humano.